Entre o visível e o invisível, Nicolle Rocha transforma geometrias e simetrias em códigos sensíveis para decifrar — e reinventar — a realidade.

Segue em cartaz na Cave, em Fortaleza, Corpus Hermeticum, primeira exposição individual da artista pernambucana Nicolle Rocha no Ceará. Com curadoria de Lucas Dilacerda, a mostra apresenta um novo desdobramento de sua pesquisa, atravessada por referências ao hermetismo e à geometria sagrada como campos de investigação estética e filosófica.

Partindo de formas universais que atravessam culturas, civilizações antigas e tradições de pensamento — da ciência à alquimia —, Nicolle constrói, em suas obras, diagramas sensíveis que tensionam modos de interpretar a realidade. Geometrias, simetrias e estruturas recorrentes emergem como dispositivos de leitura do mundo, ao mesmo tempo em que instauram possibilidades de comunicação entre dimensões visíveis e invisíveis.

Se por um lado a artista mobiliza repertórios simbólicos e conceituais densos, por outro, seu processo se ancora na fluidez da matéria. Realizadas majoritariamente em aquarela, as obras incorporam a água como elemento central — tanto material quanto poético.

Manchas, escorrimentos e borrões instauram zonas de indeterminação onde o gesto cede espaço ao acaso, permitindo que a imagem se construa em diálogo com forças não totalmente controláveis. Nesse sentido, a prática de Nicolle afirma uma ética da não-dominação, na qual conhecer o real implica também aceitar sua instabilidade.

A exposição se ancora na tradição hermética, associada aos ensinamentos de Hermes Trismegistus e sistematizada em textos como o próprio Corpus Hermeticum, posteriormente difundidos por obras como O Caibalion. Esses escritos postulam a existência de princípios universais que regem e conectam todas as coisas — ideias que reverberam nas composições da artista, onde formas geométricas sugerem estados de equilíbrio, transformação e movimento da matéria.

Distanciando-se de uma lógica de planejamento rígido, Nicolle Rocha adota uma abordagem intuitiva, permitindo que as imagens emerjam do encontro entre água, pigmento e gesto. Suas pinturas operam, assim, como mapas poéticos que investigam correspondências entre micro e macrocosmo, abrindo espaço para pensar a arte como um campo de mediação entre natureza, pensamento e universo.

Responsável pela curadoria, Lucas Dilacerda é um dos nomes atuantes na crítica e curadoria de arte contemporânea no Brasil, com trajetória que articula produção teórica, prática curatorial e atuação institucional. Integrante de associações como a AICA, ABCA e ANPAP, o curador acumula mais de seis dezenas de exposições realizadas, além de textos, cursos e participações em programas de formação em diferentes instituições do país. Sua leitura para Corpus Hermeticum acentua justamente o caráter de atravessamento entre saberes que estrutura a pesquisa da artista, situando-a em um campo expandido entre arte, filosofia e espiritualidade.


Serviço: Exposição “Corpus Hermeticum”, da artista Nicolle Rocha na Cave, com curadoria de Lucas Dilacerda. Em cartaz até 18 de abril, das 18h às 22h, no endereço Rua Pereira Valente, 757, Casa 03 (Travessa Ana Benevides), entre as ruas Leonardo Mota e Vicente Leite, CEP 60160-250.

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Publicado por:Philos

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